terça-feira, 30 de abril de 2013

DASHBOARD CONTÁBIL


















Reginaldo de Oliveira
Publicado no Jornal do Commercio dia 30/04/2013 - A120

Ao dirigir um carro o motorista precisa ficar atento ao velocímetro, temperatura do motor, nível de combustível, se a luz do óleo acendeu etc. Alguns veículos ainda dispõem de computador de bordo, aparelho de GPS, dentre outros dispositivos mais sofisticados. Sabemos também que alguns malucos rodam por aí em calhambeques sem saber o volume de combustível disponível e muito menos a velocidade. Agora, se o painel de instrumentos de um carro é tão importante para orientar as decisões do condutor, imagine um Boeing 777 que cruza o atlântico. Claro, a pilotagem de uma máquina com esse grau de complexidade exige um rigoroso preparo que pode consumir muito tempo de estudo e dedicação. O piloto precisa não somente monitorar consumo de combustível e velocidade, mas também uma gama imensa de informações que o painel de instrumentos produz intermitentemente durante toda a viagem. E se a aeronave decolou, voou e pousou conforme condições estabelecidas e horário aceitável, então a missão foi bem sucedida.

Há quase vinte anos, a sra. Ana Medeiros, então com apenas 24 anos de idade, e que tinha acabado de concluir o curso de Ciências Contábeis, foi empossada diretora administrativa da empresa Taguatur, cujo quadro funcional contava com mais de mil empregados, sendo que suas unidades estavam presentes em três estados da federação. Uma das suas primeiras decisões foi implantar uma Contabilidade Gerencial com alto nível de detalhamento, precisão e tempestividade dos registros dos fatos patrimoniais. Ela adquiriu um moderno software de Contabilidade Gerencial e fez com que o famoso “headhunter”, sr. Francisco Cardoso, procurasse um Contador que reunisse as qualificações necessárias para operacionalizar o seu projeto, visto que sabia que o contador tradicional tinha uma percepção deformada pelo viés fiscal e que por esse motivo não era capaz de compartilhar sua ampla visão de controle gerencial. O Contador foi identificado e convidado a morar em São Luís do Maranhão. Após um tempo de implantação a Nova Contabilidade estava rodando a pleno vapor. Numa época de parcos recursos tecnológicos, a sra. Ana acompanhava diariamente na tela do seu computador o comportamento de uma série de indicadores e dessa forma mantinha firme nas mãos as rédeas da administração da sua empresa. Ou seja, não havia surpresas nem sobressaltos. O sólido e preciso conjunto de informações contábeis à sua disposição permitia que ela administrasse os negócios com a força dos fatos (“delay” de apenas um dia), como fazia Alfred Sloan, o grande gênio da GM.

O que a sra. Ana fez, foi primeiramente implantar um painel de instrumentos na sua empresa semelhante ao do Boeing 777. Em seguida, contratou um profissional capaz de fazer esse dito painel de instrumentos fornecer, das mais óbvias às mais sutis informações sobre o desempenho da aeronave chamada Taguatur. E finalmente, ela transformou o seu Contador num grande aliado, quando juntos exploravam uma série de possibilidades de permanente e contínua melhoria da qualidade das informações gerenciais. Não à toa, a empresa chegou a ter um ativo circulante dez vezes maior que o passivo circulante.

Administradores como a sra. Ana são (inexplicavelmente) raros. É impressionante a dificuldade de convencer um dono de empresa a investir num sistema de Contabilidade Gerencial. E ensinar o funcionamento das estruturas dos demonstrativos contábeis, então, é um tormento. Infelizmente, o que ocorre com muita frequência é a percepção distorcida da saúde dos negócios. Há um caso curioso de uma pequena indústria prestes a fechar as portas. Os prejuízos crescentes levaram o dono a contratar os serviços de uma Contabilidade Gerencial, que num minucioso processo de registro das operações constatou que a lucratividade do negócio era excelente e que o epicentro do problema estava na bolsa da esposa do dono, que sumia com boa parte do dinheiro do caixa.

Há outro caso de um grupo grande de empresas, também fadada ao fracasso e abarrotada de problemas financeiros de todo tipo, onde a Contabilidade Gerencial apontou um alto nível de lucratividade. Mas também descobriu que a causa dos problemas era um sangramento do caixa via exaustivas retiradas dos muitos sócios e uma lista grande de investimentos desnecessários. De posse dos dados contábeis estruturados e organizados, os sócios tiveram elementos suficientes para efetuar uma série de correções e adequações, e assim salvar a empresa.

Contabilidade é isso. É esse maravilhoso painel de instrumentos capaz de demonstrar o comportamento de vários aspectos do negócio e assim permitir respostas rápidas do administrador. É um contrassenso, a ideia do Contador se dispor a convencer administradores a apostar num sistema de Contabilidade Gerencial. Os administradores é que deveriam procurar um bom Contador para fazer funcionar a sua Contabilidade Gerencial, como fez a sra. Ana. Lamentavelmente, a sra. Ana é um oásis em meio ao vasto deserto da ignorância administrativa.



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